reflexo interior

25/12/2017

conto escrito por Rute Dantas {todos os direitos reservados}
Escuro, sujo, assustador. Era uma imensidão de sombras e parecia que as nuvens do céu tinham descido até ficarem vagando pelo solo. Parecia um cenário de terror, um clichê… árvores, um silêncio infinito, eu podia até sentir o cheiro de terra molhada e musgo.

Senti um ardor por trás dos meus olhos, queimando, machucando. Só percebi que estava chorando quando estiquei o braço e com as pontas dos dedos esfreguei minha bochecha, uma mistura de maquiagem e lágrimas que pareciam marcar cada trilha que seguiam pelas minhas bochechas, fazendo questão de descerem sem parar. 

Olhei ao redor, sentindo o frio bater na minha nuca, me fazendo tremer. Medo? Prazer? Não sei, eu não sei mais de nada. Era oco. Não batia. Não conseguia escutar nada vindo dali. Meu coração parou. Ele estava vazio.

Sorri, mas parecia que estava querendo assustar alguém fazendo careta. Não tinha ânimo. Quem era aquela pessoa ali? Parada, com o rosto torcido, parecia sentir dor.

 - Quem é você? O que está fazendo aqui? - perguntei, mas não parecia que a voz que escutei era minha. Estava sufocada, trêmula, diferente.

- Quem é você? - ela perguntou, empinando o queixo e me encarando nos olhos. Incrível. Ela parecia comigo, mas eu não tinha a sensação que fosse eu.

 - Não, eu perguntei primeiro… Esse lugar é esquisito, por que você está aqui? É escuro, pegajoso e solitário! - sussurrei, abrindo mais os olhos na medida em que ela se aproximava de mim. Uma sensação estranha passou pelo meu corpo, me fazendo paralisar, prender a respiração.

A menina esticou a mão e tocou no meu rosto, esfregando onde as lágrimas tinham corrido. O seu toque me fez recuar um passo, tremendo tanto que quase caí.

- Estou aqui, porque não sei qual o caminho seguir… Estou perdida. - a voz dela era apenas um sussurro, chorosa, desesperada. Engoli em seco, olhando ao redor, tentando enxergar através da escuridão.

- Aqui é muito escuro, não consigo encontrar uma saída… Acho que nós duas estamos perdidas aqui. - estiquei o pescoço, olhando por cima da cabeça dela, mas não tinha nada. Nada.

- Você precisa encontrar a luz… Um ponto de luz. A Luz. - ela falou, mas soou como se estivesse me contando um segredo. Encarei-a.

Seu olhar tinha mudado, agora parecia que ela tinha encontrado o que tinha procurado. Estranho, muito estranho. De repente senti de novo as lágrimas voltarem a cair pelas bochechas. Fechei os olhos, tentando me conter, mas a dor no meu peito estava muito forte. O choro estava muito forte. Não consigo controlar. Grito, grito de novo e de novo. Mordo os lábios, colocando as mãos no rosto, implorando para que a dor parasse. 

Foi aí que um som estranho chegou aos meus ouvidos. Tum. Tum. Tum. Aquele lugar vazio, escuro, sujo… Vive. Abri os olhos.

 - Vá. - escutei a menina me dizer. Olhei direto para seus olhos, a cor marrom brilhando por conta das lágrimas. - Você consegue.

 - Eu não sei como… Eu não sei… Não consigo. - chorei, notando que ela me imitava, como um reflexo.

 - Siga a luz e você se encontrará. Encontrará o caminho de volta pra casa. Estão te esperando. Haverá um banquete, então vá e volte para casa. Siga a luz. - me disse, mas sua boca não se movia, foi mais como se estivesse na minha mente. Sem ficar surpresa, apenas assenti com a cabeça.

Fechei os olhos de novo. Respirei fundo novomente… Quando finalmente voltei a abrir os olhos, ela estava lá. Mas, era apenas o reflexo. O que estava passando por dentro. Minha confusão, minha crise, meu desabafo.

 - Filha, o jantar está na mesa! - escutei minha mãe falar do lado de fora do banheiro.

Pisquei, lavei o rosto e sorri para mim. Para o meu reflexo.

 - Eu vou seguir a luz… Não estou mais perdida. - afirmei. Eu estava pronta.
  

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