moça, você está na minha fotografia

21/01/2018


conto escrito por Rute Dantas {todos os direitos reservados}
Moça, você está na minha fotografia. Há três anos eu te acompanho. Há três anos eu te encontrei pela primeira vez. Era para ser algo inocente ou era para ter sido algo que eu deveria ignorar. Mas, você invadiu a minha fotografia e eu não pude evitar…

Os olhos alegres, o sorriso encantador, os cabelos soltos e bagunçados por causa do vento. Ah, moça... Se você soubesse quem sou. Ah, se você soubesse que eu te escolhi, que eu te sonhei, que eu orei e que te busco. Mas, como nem tudo é fácil, você meio que some, meio que aparece quando não espero. É tão de repente. Um vai e volta que não consigo decidir se é bom ou ruim.

Ah, se você soubesse quem sou. Eu estaria agora tocando suas bochechas com as pontas dos dedos, porque você não parece real. Não é beleza, é a sua essência. O jeitinho de você sorrir quando ajuda as pessoas ao seu redor, o jeitinho de sorrir quando faz palhaçada para alegrar as crianças que ali param para te apreciar e se alegrar no Amor. Tenho que ter calma, não é minha estação ainda. Não é o tempo. Não é a hora.

Era só o meu trabalho. Eu fotografei as crianças, aí você apareceu para dar mais vida para a minha foto. Ah, moça... Você já falou comigo, foi um simples "desculpa!" por ter pisado no meu pé... Nem senti, porque teus olhos e sua voz me fizeram viajar ali mesmo, me paralisou, roubou minha respiração e mente.

Eu tenho orado pela sua vida. Eu não vou dizer que é amor, mas posso dizer que é aquela sensação de "ah, vou casar com esta bela mulher", entende? É um queimor no peito que parece uma fogueira em chamas, queimando e destruindo o que resta aqui dentro. Eu te vejo em cada detalhe. Sabe, fotografar é mais do que uma paisagem bonita, é um meio de observação e por trás da lente eu te vejo, te beijo, te desejo.

Ah, moça... Acabei fotografando você no meu coração antes mesmo de saber seu nome.

Os dias passaram. Hoje é o dia. Estou nervoso, na verdade. A câmera está em mãos, o vidro do carro já está no lugar certo para que eu possa te ver e fotografar normalmente as crianças, as pessoas, você. Meu coração pula em meu peito.

Você está linda. Seu sorriso cresce quando fala com os pequeninos ali, que já estão prontos para o espetáculo ao vivo. Algumas pessoas andam e olham para você com curiosidade. Então você sorri e coloca a peruca colorida e o nariz vermelho. Ah, doce palhacinha... Doce menina. My sweet home.

Ri, não me contendo. Minhas mãos tremem quando ergo a câmera e te vejo por trás das lentes. Meus olhos brilham de ansiedade, de medo, de paixão. Eu quero que você saiba quem sou.

Então, é chegada a hora. Meu coração parece esticar e se despedaçar. Coloco a câmera pendurada no pescoço e saio do carro, meio com medo, meio com coragem. As pernas parecem gelatina! Você gargalhou tão alto, que eu pude escutar de onde estou, pouco mais de vinte metros, eu acho. Meu sorriso cresce, pois chegou o momento. Você vai saber quem sou. Será? Será?!

Ando com medo de cair, meus olhos focando em teu rosto alegre. Você parece um pouco ansiosa... Ou é impressão minha? Seco minhas mãos na calça jeans, andando mais rápido. Agora consigo escutar a música que você e as crianças cantam. Algumas estranham ou estão acanhadas, mas você as faz rir quando canta mais alto e abre os braços, adorando o Amor sem vergonha ou medo, mas com orgulho, com paixão e ardor.

Cheguei. Parei. Respirei.

Congelo um pouco, me aproximando somente quando terminam de adorar e os outros que são do seu grupo começam a interagir com as crianças. Chego mais perto, erguendo minha câmera. Ela tinha tirado a peruca e o nariz de palhaço, suspirando. Tão linda, tão meiga, tão minha. Um dia.

- Hm, olá! - minha voz sai estridente, como se fosse a primeira vez que a uso. Acho que corei.

- Olá! Achei que nunca viria falar comigo. - disse ela, levantando os olhos e encontrando os meus, a expressão tímida, com os olhos alegres brilhando.

- O... O que? - é a única coisa que eu consigo pronunciar no momento. Meu coração bate tão forte que desconfio que ela possa escutá-lo. Jesus, que mico!

- Acho que já fazem uns três anos que eu observo você no seu carro, usando sua máquina fotográfica. Às vezes eu te via direcionado para esta área... Acho que não estava enganada. Então, meu nome é Marina, e o seu?

Ela soube. Na verdade, ela já sabia. Ela sabe quem sou. Ela sabia que eu existia, e provavelmente sabe que eu tirava e tiro fotos do seu projeto, fotos dela, óbvio. É estranho, é uma sensação estranha… É algo novo.

- Fernando. Meu nome é Fernando. - estendi a mão. Foi sem igual, foi um toque diferente, foi único, foi quente, foi eletrizante.

E tudo recomeçou. De novo. De novo. De novo. Era um sonho e eu não queria acordar.
 

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Um comentário:

  1. AHHH, eu lembro desse texto lindo! Acho que foi por ele que conheci seu blog.

    Muito bom poder acompanhá-la por aqui de novo.

    Beijos <3

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