Há um tempo

19/03/2018

conto escrito por Nathaly Dantas {todos os direitos reservados}
Eu entrei no meu apartamento e corri para me jogar no sofá. Larguei a mochila pesada no chão, e que coisa estranha... O peso pareceu não sair dos meus ombros. Coloquei as mãos no rosto e respirei fundo, tentando identificar o que estava acontecendo comigo. Fiquei uns minutos nesse mergulhar em mim mesma e admiti, antes tarde do que nunca,  que algumas coisas precisavam ser resolvidas urgentemente. Sabe quando você parece fazer as coisas no automático, porque a sua mente está totalmente voltada para as coisas que parecem te corroer, porque não estão esclarecidas? Sei lá, às vezes penso que só acontece comigo essas noias
Disquei o número do Gustavo. Para minha sorte ele atendeu na hora. 

- Oi, Vic! Aconteceu alguma coisa? - a voz dele era suave e acolhedora, como em todo tempo ou quase sempre. 

- Guga... - um nó se formou em minha garganta. - Eu não estou conseguindo lidar com as minhas angústias. 

- Nem sempre é fácil. Eu também não consigo lidar com as minhas muitas vezes, mas nessas horas, eu paro de racionalizar tanto e me deixo sentir as confusões que meu cérebro não consegue compreender. - disse com sua voz mansa, que me traz paz.

- Eu estou sentindo faz um tempo uma angústia muito grande por constrangimento de falar o que eu sinto e que já era para eu ter dito há muito tempo. - me sentei no sofá e fechei os olhos por um momento. - Não é fácil expor o que se sente, né? Às vezes é complicado por tantas outras questões. 

- Vic... Eu estou começando a ficar preocupado com essa conversa. - o tom de voz dele mudou e  respirei profundamente pronta para falar, mas ele interrompeu. - Eu chego aí daqui uns quinze minutos. 

Foram os quinze minutos mais demorados de toda minha vida. A campainha tocou e corri para abrir a porta. 

- Oi, oi. - Gustavo me abraçou apertado e suavizou, mas não me soltou. E naquele momento ele não estava só abraçando meu corpo, ele estava abraçando a minha alma. Senti ele dando um cheiro na minha cabeça e alisando os meus cabelos com uma de suas mãos. - shh... Vai ficar tudo bem.

- Pensei que fosse morrer de tanto esperar. - ri, mesmo tendo lágrimas molhando o meu rosto. - Como você consegue ser meu amigo? 

- Não é difícil. Ter você na minha vida é incrivelmente maravilhoso, Vic. - fixou seus olhos nos meus e eles sorriram para mim. 

- Acho que você não quer ficar em pé feito um poste aqui na entrada, né? - fiz um gesto para ele ir para sala. 

- Diz pra mim... O que está acontecendo? O que você está sentindo? - sentou na mesinha de centro de frente para mim, colocando as mãos nos meus joelhos e brincando com eles. 

- Eu estou sentindo um emaranhado de sentimentos. - gargalhei da expressão engraçada que ele fez. 

- Respondeu tudo. - bateu palmas e sorriu depois. 

- Faz um tempo que estou sentindo isso e no começo perguntei o que estava acontecendo comigo e até tentei mentir para mim sobre o sentimento forte que estava florindo e se fortalecendo dentro de mim... - meu coração estava dançando frevo dentro do peito. 

- A gente mente pra gente mesmo muitas vezes... Ou pelo menos, tenta mentir. - ele me olhava atentamente e senti como se tivesse falado não só para mim, mas para ele mesmo. 

- Acho que sou expert nisso, infelizmente. - sorri amarelo. - Mas, continuando... Eu relutei por um bom tempo, só que foi em vão. Quando eu me encontrava com ele, eu sabia que era diferente, eu sabia que não era coisa da minha cabeça, o sentimento era real, mais real do que qualquer outra coisa que eu pudesse ver ou tocar. - mordi o lábio inferior levemente. 

- Vic... Você está apaixonada por algum garoto? É isso? - vi um pingo de tristeza saltar de seus olhos. 

- Estou completamente apaixonada por um garoto, Guga. É um sentimento que vem pulsando em mim, como eu disse, há um tempo e não consigo mais não falar sobre isso. - senti meu corpo numa mistura de fogo e gelo. 

- Eu vejo que você realmente está apaixonada. Seus olhos, seus lábios, a energia que emana do teu corpo, o jeito que você fala... revela isso. - os olhos dele estavam vidrados nos meus, fazendo-me estremecer. 

- Guga... - sussurrei.

- Quem é o cara? - falou com a voz um pouco falha. 

- Você não vê? - segurei uma das mãos dele e pelo menos eu não era a única pedra de gelo presente naquele momento. 

- Não, não vejo. - disse baixo. 

- Por que está mentindo para si mesmo? 

- Porque eu tenho medo. - confessou, desviando seu olhar do meu.

- Medo de quê? - me levantei suavemente do sofá e me sentei em seu colo, tímida. Segurei seu rosto com as minhas duas pequeninas mãos e olhei-o nos olhos. - Medo de quê? 

- De estar errado sobre o que estou vendo. - repousou uma de suas mãos sobre a minha. 

- Me diz o que você vê. 

- O rapaz por quem você está apaixonada... sou eu? - a dúvida não estava apenas na fala dele, estava estampada em seus olhos. 

- Eu não estou apaixonada por você... Eu me encontro completamente apaixonada por você, Gustavo. - senti lágrimas escorrendo lentamente sobre as minhas bochechas. 

- Nós somos dois bobos. - ele disse, enxugando as lágrimas das minhas bochechas. 

- Por quê? - funguei. 

- Porque esperamos muito tempo para poder dizer isso abertamente um para o outro. Nós passamos muito tempo mentindo para nós mesmos... - acariciou meu rosto. - Eu sou há muito tempo completamente apaixonado por você. - beijou a pontinha do meu nariz, me fazendo fechar os olhos e registrar aquele momento fortemente dentro da minha alma. 



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