Clara

30/04/2018


Mini conto escrito por Nathaly Dantas {Todos os direitos reservados}

Clara, oi... Mais cedo eu estava andando pela rua que nos conhecemos. Lembro que esbarramos um no outro naquela quinta-feira chuvosa. Você estava super apressada cheia de livros em uma mão, enquanto a outra segurava o guarda chuva. Você olhou para mim e perguntou se eu estava cego, me fuzilando com os seus enormes olhos cor de mel. Pedi desculpas, mas você foi tão delicada que mandou eu me lascar. E mesmo assim, eu te achei linda e ri. Como uma pessoa rir ao ouvir a outra te insultar? 

Parei na primeira casa que moramos. Vivemos momentos tão felizes lá, não é? Eu não consegui manter meus olhos secos... Chorei ao lembrar das vezes que cheguei do trabalho, cansado e completamente acabado e você abria a porta com um sorriso largo e pulava em cima de mim, me dando o abraço mais gostoso do mundo. Tudo bem que às vezes você abria a porta com uma frigideira na mão, pronta para meter na minha cabeça, mas não foram muitos momentos que você fez isso e lembrar deles me fazem sorrir. 

Eu sinto tanto a sua falta, Clara. Desde o dia que você se foi, um vazio preencheu o meu peito e minha vida já não tem o mesmo colorido... Você intensificava todos os tons da minha vida. Todas as noites eu me pego chorando e às vezes me acordo aos berros, suado e totalmente desnorteado. Você estava vindo saltitante em minha direção, com o sorriso mais sapeca. Segurava uma embalagem, quando de repente uma moto apareceu em alta velocidade e bateu em você, te lançando para longe, fazendo com que você batesse a cabeça no meio fio. Eu escrevo em meio a lágrimas de dor que queimam, queimam pra valer... 

Corri até você e gritei o seu nome várias vezes, tinha muito sangue no chão. Meu mundo estava desmoronando. Eu já não conseguia ouvir mais nada, nem mesmo o meu choro. Eu clamei para você voltar para mim, eu chamei e chamei por você, supliquei para você voltar, mas você não voltou, se foi... Lembro que me debrucei sobre o seu corpo e chorei, eu não estava acreditando que tinha perdido você, uma onda de dor, uma dor que eu jamais havia sentido me inundou e pensei que meu peito fosse se rasgar literalmente, um grito queimou em minha garganta e não consegui conte-lo. Um amontoado de pessoas se juntaram ao redor e uma delas me entregou a embalagem que estava em suas mãos e não sei como tive forças para abrir.

Quando eu abri a embalagem, tinha dentro um par de sapatos de neném com um cartão dizendo "Não somos mais dois, somos três. A nossa família vai aumentar!" e o meu mundo naquele momento, já não existia mais. Eu só não tinha te perdido, eu perdi um filho. Não consigo parar de escrever neste diário, de certa forma... Sinto como se você não tivesse partido. Clara, você vive em mim. 


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